domingo, 4 de maio de 2014

" No bar, todo mundo gosta de mim..."

    Ao ouvir esta frase de uma pessoa que eu amo muito, voltei uns dez anos atrás: estava no consultório de uma psicóloga tentando resolver um suposto transtorno de ansiedade. Enquanto ela queria saber o que me levou até ali, eu queria entender porque eu estava ali. Então respondi: minha ginecologista mandou eu procurar ajuda, pois se eu continuasse como estava, corria o risco de futuramente "enlouquecer" o bebê que carregava no ventre. Dito isso, passei a falar da minha vida, das perdas, do pai alcoólatra... Ops! Sinal de alerta: havia um alcoólatra em minha vida? Sim, mas meu pai nunca incomodava! Bebia e ficava lá no canto dele dormindo ou quieto olhando para o nada. Foi então que a moça sentada na minha frente me surpreendeu: "um alcoólatra sempre incomoda, ele pode estar quieto, ele pode não brigar, ele sempre incomoda! Depois de mais alguns minutos de conversa ela me dispensou dizendo que minha ansiedade era perfeitamente aceitável, que eu não precisava de medicação e poderia voltar se sentisse vontade de conversar. Nunca mais voltei!

    De certa forma, aquela impotência e frustração diante da doença do meu pai me fazia infeliz, não por mim pois como eu já havia referido a psicóloga, ele não me incomodava. O que me incomodava era o fato de ele estar infeliz, de não haver nada nesta vida que fosse mais forte que o vício, a doença que o escravizava e que no fim, acabou nos privando tão cedo de sua companhia.


     Estudos afirmam haver uma predisposição genética para o consumo e possível dependência do álcool. Ou seja, filhos de alcoólatras tem grande chance de se tornarem alcoólatras! Sabendo disso, sempre que me pegava abusando das bebidas ou bebendo com uma frequência que me incomodava, acendia em mim um alerta: de que eu era filha de um dependente químico (como meu pai gostava de dizer, depois de frequentar as reuniões do A.A.). 
    Conviver com um dependente químico exige muito mais que amor, é algo que esgota a sua alma até o extremo, você quer ajudar, tenta de tudo mas no final nada adianta se aquela pessoa não quiser ou não tiver forças pra largar do vício.

     Quando esta pessoa chegou e sentou aos meus pés e com os olhos lacrimejantes me contou de sua luta e de como se sentia vitorioso por estar há quatro meses sem usar drogas, senti que devia simplesmente escutar, falar só o necessário. Então veio a frase. E o motivo de tantas noites no bar...




     Além da predisposição genética, alcoólatras são pessoas carentes, normalmente têm transtornos psicológicos (se não têm, adquirem), é difícil suprir suas necessidades, mas apoiar dar carinho e as vezes um ombro amigo não custa nada. Nunca soube o que fazer com um alcoólatra, continuo não sabendo, mas enquanto eu puder eu vou dar o que eu tenho: amor, minha amizade e meu carinho.




      Querido amigo*, eu também gosto de você! Quando quiser conversar eu sempre estarei aqui, não precisa ir pro bar...




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